Eventos climáticos no Rio Grande do Sul colocam o agronegócio em alerta

Chuvas intensas e tempestades no Rio Grande do Sul preocupam produtores. Veja os impactos nas lavouras, na pecuária e os cuidados recomendados.

7/29/20265 min read

O Rio Grande do Sul voltou a enfrentar um período de elevada instabilidade atmosférica, com chuvas intensas, tempestades, ventos fortes e possibilidade de granizo. A sucessão de eventos climáticos aumenta a preocupação dos produtores e exige atenção redobrada nas lavouras, pastagens e propriedades rurais.

Nesta terça-feira, 28 de julho, o Instituto Nacional de Meteorologia emitiu aviso vermelho de grande perigo para acumulados de chuva e aviso laranja para tempestades em áreas gaúchas. Para esta quarta-feira, 29, a previsão indicava a continuidade das chuvas intensas e o avanço das instabilidades pela Região Sul. As informações são do INMET.

Os fenômenos registrados durante julho reforçam um cenário de maior variabilidade climática no estado. Ao longo do mês, o Rio Grande do Sul enfrentou diferentes episódios de tempestade, ventos fortes, granizo, quedas acentuadas de temperatura e períodos de chuva persistente.

Chuvas frequentes dificultam as atividades no campo

A elevada umidade do solo pode limitar a entrada de máquinas nas propriedades, atrasar a aplicação de defensivos, dificultar a adubação de cobertura e prejudicar outras operações agrícolas.

O problema é especialmente importante para as culturas de inverno, como trigo, aveia, cevada e canola. Essas lavouras necessitam de umidade para seu desenvolvimento, mas o excesso de água pode provocar encharcamento, redução da oxigenação das raízes e perda de nutrientes por lixiviação.

Entre os principais riscos estão:

  • Encharcamento e erosão do solo;

  • Dificuldade de acesso às lavouras;

  • Atraso nos tratamentos fitossanitários;

  • Maior ocorrência de doenças fúngicas;

  • Perda de nutrientes aplicados;

  • Danos causados por ventos fortes e granizo;

  • Alagamento de áreas próximas a rios e arroios.

A intensidade dos prejuízos varia conforme o volume de chuva, o estágio de desenvolvimento das culturas, a drenagem de cada área e a duração do encharcamento. Por isso, ainda não é possível generalizar perdas para todo o estado.

Trigo exige atenção fitossanitária

As lavouras de trigo estão entre as atividades que mais exigem acompanhamento neste período. O tempo úmido prolongado cria condições favoráveis para o desenvolvimento de doenças, especialmente quando há temperaturas amenas e longos períodos de molhamento foliar.

O produtor deve intensificar o monitoramento de problemas como:

  • Mancha-amarela;

  • Ferrugens;

  • Oídio;

  • Podridões radiculares;

  • Giberela, principalmente mais adiante, durante o florescimento.

O calendário de aplicação de fungicidas deve considerar as condições da lavoura, o risco de ocorrência da doença e as recomendações de um engenheiro agrônomo. Aplicações durante ventos fortes ou próximas de chuvas intensas podem apresentar menor eficiência e aumentar o risco de perdas do produto.

Excesso de água também prejudica o solo

Solos descobertos ou excessivamente mobilizados ficam mais vulneráveis à erosão causada pela chuva. A água pode carregar a camada superficial, matéria orgânica, fertilizantes e sementes, reduzindo a fertilidade e provocando assoreamento de cursos d’água.

Áreas compactadas também apresentam menor capacidade de infiltração. Nessas condições, aumenta o escoamento superficial e a possibilidade de formação de enxurradas.

A manutenção de palhada, o uso de plantas de cobertura, o plantio em nível e a implantação de terraços, quando tecnicamente recomendada, ajudam a reduzir a velocidade da água e proteger o solo.

Essas medidas são especialmente importantes diante de um cenário em que os eventos de chuva forte podem se tornar mais frequentes.

Pecuária enfrenta lama, frio e dificuldade de acesso

Os impactos climáticos não estão restritos às lavouras. Na pecuária, a combinação entre frio, chuva e lama pode reduzir o conforto dos animais, aumentar o gasto energético e favorecer problemas sanitários.

Na bovinocultura de leite, o excesso de umidade pode comprometer a higiene durante a ordenha e elevar o risco de mastite. Também pode dificultar o transporte da produção em estradas rurais sem pavimentação.

Na criação de bovinos de corte, ovinos e outros animais, os principais cuidados envolvem:

  • Disponibilizar áreas secas e protegidas;

  • Manter bebedouros e cochos limpos;

  • Evitar concentração excessiva de animais em locais com lama;

  • Garantir alimento suficiente nos períodos frios;

  • Verificar cercas, pontes e acessos;

  • Observar animais jovens, debilitados ou recém-nascidos;

  • Acompanhar a qualidade das pastagens.

Pastos encharcados ficam mais sujeitos ao pisoteio e à compactação. Quando possível, o produtor deve organizar o pastejo para evitar danos permanentes às áreas mais sensíveis.

Estradas rurais e armazenamento também preocupam

Chuvas volumosas podem danificar estradas, pontes, bueiros e acessos internos, prejudicando o transporte de leite, animais, insumos e produtos agrícolas.

Outro ponto de atenção é o armazenamento. Galpões, silos e depósitos devem ser inspecionados para identificar infiltrações, problemas no telhado e entrada de água.

Grãos, sementes, fertilizantes, rações e defensivos precisam permanecer em locais secos, ventilados e protegidos. Produtos químicos devem ser armazenados de acordo com as regras de segurança e nunca podem ficar próximos de áreas sujeitas a alagamentos.

El Niño aumenta a necessidade de monitoramento

O prognóstico climático oficial para o trimestre de julho, agosto e setembro de 2026 aponta influência crescente do El Niño. O boletim do governo gaúcho destaca que o fenômeno está historicamente relacionado ao aumento das precipitações, das chuvas intensas, dos alagamentos e das cheias de rios no Sul do Brasil. Confira o prognóstico da Secretaria da Agricultura do RS.

Uma nota técnica conjunta de órgãos federais também alerta para a possibilidade de eventos climáticos extremos durante o segundo semestre de 2026. Em anos de El Niño, a Região Sul tende a registrar volumes de chuva superiores à média, embora a distribuição das precipitações possa variar bastante entre municípios. Veja a nota técnica do INMET, INPE, Funceme e Censipam.

Isso não significa que todos os meses serão continuamente chuvosos. Períodos de tempo seco, frio intenso, calor fora de época e tempestades localizadas também podem ocorrer. A principal característica esperada é a maior irregularidade.

Como o produtor pode reduzir os riscos

Diante do cenário climático, algumas medidas podem ajudar a diminuir os prejuízos:

  1. Acompanhar diariamente os avisos do INMET e da Defesa Civil;

  2. Evitar operações com máquinas em solos saturados;

  3. Revisar canais de drenagem sem direcionar água para propriedades vizinhas;

  4. Manter o solo protegido com palhada ou cobertura vegetal;

  5. Intensificar o monitoramento de doenças nas culturas de inverno;

  6. Proteger animais, rações, sementes e insumos;

  7. Fotografar e registrar eventuais danos na propriedade;

  8. Comunicar perdas à assistência técnica, seguradora ou instituição financeira;

  9. Respeitar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático;

  10. Elaborar um plano de contingência para a propriedade.

Em situações de tempestade, a prioridade deve ser a segurança das pessoas. O produtor não deve atravessar áreas inundadas, permanecer próximo de árvores isoladas, redes elétricas ou estruturas comprometidas.

Planejamento climático torna-se indispensável

Os eventos climáticos no Rio Grande do Sul mostram que o planejamento rural precisa considerar não apenas a produtividade, mas também a capacidade de adaptação das propriedades.

Conservação do solo, drenagem planejada, diversidade de culturas, seguro rural, reserva de alimentos e acompanhamento meteorológico são ferramentas cada vez mais importantes.

O produtor que registra as condições da propriedade, acompanha os alertas oficiais e busca orientação técnica consegue tomar decisões mais rápidas diante das mudanças do tempo. Em um cenário de maior instabilidade, informação e prevenção passam a fazer parte da gestão diária do agronegócio gaúcho.

Aviso: As previsões meteorológicas podem mudar rapidamente. Produtores devem consultar os avisos atualizados do INMET, da Defesa Civil do Rio Grande do Sul e da assistência técnica local antes de realizar atividades no campo.

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